Meu contínuo ato

 Fico eu a pensar…
Nas minhas utopias.
E na nova geração que já não sonha mais!
E pensar nas múlti-plas razões…
Do meu contínuo ato de escrever!
Textos que ninguém vai compreender.
Aí vem o desejo…
De revisar os meus velhos textos!
E lembro-me também de re-visitar.
Meus antigos mestres já mortos!
Então eu ensaio o meu Adeus às Armas!
Eu não consigo!
Ensaio o meu Motim!
Eu não consigo!
Ensaio o meu Boy-cote!
Eu não consigo!
Ensaio a minha Greve de fome!
Eu não consigo!
Ensaio o meu Retorno à vida.
Eu não consigo!
Aí tento escrever algo novo…
Eu não consigo!
Tento viver outra vida!
Eu não consigo!
Tento novos hábitos!
Eu não consigo!
Tento novos padrões de consumo!
Eu não consigo!
Tento ficar sozinho…
Eu não consigo!
Tento quebrar o silêncio sepulcral!
Em mim…
E não consigo!
Tento entender as pessoas!
Eu não consigo!
Tento compreender-te…
Eu não consigo!
Tento me esconder de ti…
Eu não consigo!
Tento te esquecer por completo…
Eu não consigo!
Ensaio me entender…
Eu não consigo!

Piano perfeito

Harmonias desarmônicas
Um vibrato sintéctico
Que possa me guiar
Uma lembrança boa, benquista
Benfazeja
Em tempos do cólera
Um sentimento caridoso
Em tempos apoplécticos
De desesperos sem fim
***
Harmonias desarmônicas
Um mavioso vibrato ao longe
Lento e enluarado
Que possa me guiar
Em meio a trágica
Inexistência que me lançaram
Em tempos imemoriais
***
Harmonias desarmônicas
Um nevoento vibrato lento
Longo e melancólico
De uma música quase perfeita
Um negro dedilhar imaginário
Em outra dimensão
***
Harmonias desarmônicas
Um vibrato lento
Longo e dorido
Em um prelúdio
Uma dança, graciosa,
Em belo sorriso perolado
Que iluminando
A noite infinda
Que vai mudar o nosso final
***
Harmonias desarmônicas
Um vibrato lento
E longo
Entre álgidas e hialinas plumas
De cristais quebrados

Epifânia Abstrata

O palco é o habitat
Dos artistas
***
Ah as luzes
As luzes da ribalta
A ciclorama
Os aplausos
Os gritos
Os vivas efusivos
E a saudação curvilíneo
Dos artistas ao público
Que pede estridente
Um bis
Ao ver descerrar a cortina
***
Eu?
Eu fico na porta de entra
Uniformizado estático
A espera por tudo que não vem
***
O palco é o habitat natural
De todos os artistas
O microfono
Os alto-falantes
E voz estridente
Que retumba para o além
Da infinitude cósmica
***
Eu?
Eu esqueço o texto
***
Eu?
Eu destoa de tudo
E de todos
Com a voz embargada
Olhando para a público sentado
Que espera e espera
Por aquilo que não vem
E que nunca virá
***
Eu?
Sou eu tentando ser maior
Que a censura cibernética
Facebookiana
E não consigo
***
Eu?
Eu admiro extasiado
A artista no palco
A minha vaporosa negra musa
Distante de tudo
E de todos
***
Eu?
Eu tomo a pena
E o mata-borrão
A hialina folha em branco
***
Eu?
Tento compor um poema
Com poesia abstrata
E não consigo
***
Eu?
Eu martelo o teclado
Com fúria titânica
Tento compor uma prosa simbolista
E não consigo
***
Eu?
Tento me exilar
Na arte absoluta
E não consigo
***
Eu?
Tento esquecer de mim mesmo
Mas não consigo