Os saltadores

Certa vez o pulgo, o gafanhoto e um boneco de mola quiseram verificar quem pulava mais alto, e convidaram o mundo e mais alguém para ver o espetáculo. Quando os três estavam juntos na mesma sala, dava para ver que eram mesmo muito bons de pulo.

– Darei a minha filha a quem saltar mais alto! – declarou o rei – seria uma pena eles pularem por nada!

O pulgo apresentou-se primeiro. Tinha maneiras elegantes e cumprimentou a todos os presentes, pois tinha sangue nobre e estava acostumado a misturar-se à sociedade humana, e isto queria dizer muita coisa.

Em seguida veio o gafanhoto, que era bem mais robusto, mas parecia muito elegante em seu uniforme verde. Além disso, ele disse que vinha de uma família muito antiga das terras do Egito, e era tido em alta conta lá também. Tanto o pulgo como o gafanhoto elogiaram muito seus próprios talentos, e declararam que se julgavam adequados para se casar com uma princesa.

Quanto ao boneco de mola, não disse nada, mas as pessoas acharam que isso significava que ele estava pensando ainda mais alto. Quando o cão da corte foi cheirá-lo, disse que tinha certeza de que o boneco de mola era de boa família.

Então chegou a hora de começar a pular. O pulgo pulou tão alto, que ninguém conseguiu vê-lo. Disseram que ele não tinha pulado nada, e que estava trapaceando.

O gafanhoto só pulou a metade da altura do pulgo, mas pulou bem no rosto do rei, e o rei disse que aquilo era péssimo.

O boneco de mola ficou parado quieto por algum tempo, pensando no assunto, até as pessoas acharem que ele não era capaz de pular.

– Espero que não esteja se sentindo mal! – disse o cão da corte, cheirando-o de novo.

Vupt!

O boneco de mola deu um pulinho e pousou no colo da princesa, que estava sentada num tamborete dourado baixinho. Então o rei disse:

– O pulo mais alto foi de quem pulou até minha filha, pois não é possível chegar mais alto. Mas foi preciso ter inteligência para descobrir isso, e o boneco de mola é esperto e tem miolo. Assim, ele conquistou a princesa.

– Mas eu pulei mais alto! – disse o pulgo – ora, dá no mesmo. Ela que fique com o boneco de mola, eu não ligo! Pulei mais alto, mas parece que neste mundo só as aparências importam.

Assim, o pulgo foi para o estrangeiro servindo na ativa, e dizem que lá foi morto. O gafanhoto foi sentar-se no fosso para pensar nas coisas do mundo e concordou:

“Só as aparências importam!”

O boateiro

Esta historinha — evidentemente fictícia — corre em Recife, onde o número de boateiros, desde o movimento militar de 1.° de abril, cresceu assustadoramente, embora Recife já fosse a cidade onde há mais boateiro em todo o Brasil, segundo o testemunho de vários pernambucanos hoje em badalações cariocas.

Diz que era um sujeito tão boateiro, que chegava a arrepiar. Onde houvesse um grupinho conversando, ele entrava na conversa e, em pouco tempo, estava informando: “Já prenderam o novo Presidente”, “Na Bahia os comunistas estão incendiando as igrejas”, “Mataram agorinha o Cardeal”, enfim, essas bossas. O boateiro encheu tanto, que um coronel resolveu dar-lhe uma lição. Mandou prender o sujeito e, no quartel, levou-o até um paredão, colocou um pelotão de fuzilamento na frente, vendou-lhe os olhos e berrou: “Fogoooo!!!”. Ouviu-se aquele barulho de tiros e o boateiro caiu desmaiado.

Sim, caiu desmaiado porque o coronel queria apenas dar-lhe um susto. Quando o boateiro acordou, na enfermaria do quartel, o coronel falou pra ele:

—    Olhe, seu pilantra. Isto foi apenas para lhe dar uma lição. Fica espalhando mais boato idiota por aí, que eu lhe mando prender outra vez e aí não vou fuzilar com bala de festim não.

Vai daí soltou o cara, que saiu meio escaldado pela rua e logo na primeira esquina encontrou uns conhecidos:

—    Quais são as novidades? — perguntaram os conhecidos.

O boateiro olhou pros lados, tomou um ar de cumplicidade e disse baixinho: — O nosso exército está completamente sem munição.

STANISLAW PONTE PRETA

A quiromante e a centopéia

Um dia a centopeia foi consultar uma quiromante. A centopeia queria saber se o seu namorado gostava dela. Na verdade, ela queria saber se o namorado casaria com ela, mas achava que se ele gostasse dela, já era meio caminho andado para o casório.

Daí então a centopeia deu um susto na quiromante, porque a quiromante já tinha lido o futuro em muitas mãos, Já havia visto as linhas do coração, da cabeça e da vida, em centenas de palmas. Mas nunca tinha topado antes com tantas mãos para ler de uma só vez. E muito menos tantas mãos em um só ser.

A quiromante arregaçou as mangas e enfrentou o maior desafio de sua carreira de profissional leitora das linhas das mãos, onde está escrito a verdade.

E leu a primeira mão da centopeia. E viu que o namorado dela casaria com ela sim.

E leu a segunda mão da centopeia. E viu que o namorado da centopeia não casaria com ela.

Acontece que a centopeia chega a ter 170 mãos.

E deu empate. 85 mãos diziam que sim, 85 mãos diziam que não.

Mas a centopeia saiu contente. Preferia acreditar que a metade dos sins era mais forte que a metade dos nãos.

E a quiromante também ficou feliz. Tinha acertado na leitura de todas as mãos da centopeia.

Afinal o futuro é isso mesmo: Metade certezas, metade dúvidas.

Moral da Estória: você é quem deve decidir em que acreditar. Por isso acredite sempre mais que vai dar certo.