Monólogo do enforcado

Somos enforcados. Em Coromandel, num acesso de fúria, matamos a facadas nosso dono. Não queríamos isso. A princípio, pensamos apenas em defender-nos e assustá-lo, para que ele não nos matasse a porretadas. Mas quando o senhor viu nossa reação, ficou indignado e disse que nos mataria a pancadas, como se mata um cachorro danado.

Depois, trouxeram-nos para Araxá, amarrados e vigiados todo o tempo. Batiam-nos sempre, xingavam-nos de todo nome ruim que conheciam, e diziam que muitas vezes iríamos nos arrepender de ter nascido. Brancos, sonsos, como se nós tivéssemos escolhido semelhante modo de vida…

Houve o júri. Dizem que era estreia. Todo mundo foi assistir. O Promotor falou muito, o Advogado de Defesa quase nada. Não adiantava. Todos sabiam qual seria o resultado. Menos nós, que tínhamos alguma esperança.

Quando o juiz leu a sentença, eu senti um fogo subir na boca do meu estômago, as pernas ficaram bambas e tive vontade de chorar, mas as lágrimas não saiam.

Não queriam perder tempo, e quando terminou o júri a forca já estava pronta. Fomos para lá e a multidão nos seguiu. Alguns nos atiravam pedras, outros nos cuspiram no rosto, quiseram agarrar-me pelos cabelos, mas carapinha de preto não tem jeito de agarrar.

Houve até discurso, quando já estávamos no alto do morro. Meu irmão foi o primeiro, eu por último. No momento em que o carrasco me passou a corda no pescoço, toda dor do corpo maltratado, da boca sangrando, do olho rasgado, da fome de três dias sem comer, tudo sumiu.

A Mamãe do Céu me fez entender que naquela hora eu recebia minha carta de alforria. Era para sempre um homem livre.

No alto do morro dois corpos balançavam pendurados na forca. Uma pequena multidão assistia ao carrasco descer os negros enforcados e cortar-lhes a cabeça.

A Vila está em festas, pela inauguração do júri e da forca. Entendiam que escravo era uma coisa e não podia ser tratado como pessoa. Assim, se os pretos tiveram a coragem de matar a facadas seu próprio dono, deviam morrer como animais, para que nenhum escravo se atrevesse a tanto. Era o que a Vila entendia por justiça.

No alto de Santa Rita, tudo agora é silêncio. Todos se retiraram e a noite cobriu a forca com seu imenso véu negro. No chão de pedras e capim, as grandes manchas de sangue dos pretos ficaram como único sinal do que se passou.

A Vila adormece. Na senzala, os escravos cochichavam apavorados, os dramas que os obrigaram a presenciar. Alguns choram, outros fazem o sinal da cruz.

O vento passa entre as folhas da árvore gigantesca no alto de Santa Rita, produzindo um longo gemido, como se a própria natureza chorasse os erros dos homens.

Sobre o amor

Para onde vou com tanta tristeza!?
Somente à beira de um penhasco!
E, onde deposito esta alegria!?
No coração limpo, nunca incauto!
Como traduzir-me!?
Pobre de minha alma, ao lidar
com vários eu….se aprisionou!
Minha mente, fadigada e sonhadora,
Se reencontra, sempre no silêncio….
E, vendo-me um ser repugnante,
convicta, consegui resignar…aceitar!
Joguei-me aos extremos, para
viver apenas de amor, tirei o ódio
Tirei toda vastidão de sentimentos ruins!
Pois no silêncio reencontro-me….
Sigo convicta, de que o amor,
sempre será preciso, e o resto
impreciso…
Como traduzir-me?
Desvairada, rude, morosa, inconstante,
Mas o amor sempre sobre minha essência…!
 Amor sempre.

Porque os galos cantam de madrugada

Certo dia Sua Majestade o Leão deu uma festa e para a mesma convidou todos os outros bichos. O pagode devia começar aos primeiros albores do dia e os convidados a essa hora já deveriam estar presentes.

A festa era de arromba, a mais bonita de quantas havia notícia até aquela data. Quando chegou o dia marcado, nenhum dos bichos teve sossego. É que nenhum queria faltar ao convite, muito menos perder a hora.

Ao clarear do dia, o rei dos animais já tinha a casa cheia. Uma multidão. Nenhum dos convidados faltara, a não ser mestre Galo. Ele se esquecera inteiramente do convite.

Notando a sua ausência, Sua Majestade enfureceu-se, achou que aquilo era pouco caso, não tinha desculpa e mandou uma escolta de dois gambás para trazer o galo à sua presença.

Quando os gambás entraram no galinheiro, foi um salve-se quem puder; a galinhada saltou dos poleiros e se pôs a esvoaçar pelo rancho, a cacarejar que nem maluca. Mestre Galo acordou, espreguiçou~se e não atinou com aquilo.

Um gambá falou:

— Viemos buscar-te, seu tratante, por ordem de Sua Majestade. El-rei Leão dá-te a honra de um convite para a maior festa do mundo e ficas a dormir.. .

O galo coçou a cabeça:

— Ah! É verdade! Esqueci-me, perdi a hora!
— Pois por isso mesmo estás pegado para Judas. Outra vez, darás um nó na crista, para não esqueceres, ..

— Perdão, camaradas! Não me levai para lá! Que desejará fazer de mim Sua Majestade?…

— Ainda perguntas! Comer-te, se tamanha honra te der, caso não queira entregar-te aos gambás, a fim de que nós demos cabo de ti!

E dizendo isso, um dos gambás foi destroçando toda a família de mestre Galo, sem deixar uma cabeça na extremidade de cada pescoço. Os gritos aumentaram e as penas esvoaçaram no interior do rancho.

O galo chorava, maldizia-se, mas em vão. Ordenou-lhe:

— Vamos! Para a presença de Sua Majestade!

Mestre Galo não teve outro remédio senão seguir na frente, mas cabisbaixo e jururu.  Chegados ao palácio do leão, a escolta e o preso foram ter à presença de Sua Majestade, que soltou um urro de raiva;

— Patife! Galo de uma figa! Com que então ousaste desobedecer ao meu real convite, não te apresentando à hora marcada para a minha festa? Pois vais pagar caro esse atrevimento.. .

— Saiba Vossa Majestade que não foi por querer, mas por lamentável esquecimento. Perdão! Eu me ajoelho aos pés do meu rei!

— Tens o que se chama memória de galo, cabeça de vento. Ia dar-te a morte, mas como te humilhaste, e para não perturbar a alegria da minha festa, vou comutar a pena. Daqui para diante, como castigo do teu esquecimento, não dormirás depois da meia-noite. Dormirás ao pôr do sol e acordarás logo depois. À meia-noite, cantarás, às duas amiudarás e ao surgir do dia cantarás ainda, dando sempre sinal de que estás alerta. Se dormires, se não cantares nas horas indicadas, tu com tua família correrás o risco de ser comido pelos animais inimigos de geração tão indigna. Assim não esquecerás mais e ficará punida tua vil memória!

Mestre Galo sentiu-se muito contente com a solução e, para não se esquecer de que havia de cantar à meia-noite, cantou também ao meio-dia. Dessa data em diante, passou a cumprir o seu fado, cantando pela madrugada a fora, por ter desatendido a um convite do monarca. E quando canta, fecha os olhinhos, fazendo força para não se esquecer de que tem de cantar outra vez, e canta de dia para se lembrar de que há de cantar de madrugada.