Bom dia

O que te mantem tão dispersa,
Tão centrada e inquieta
Que não olhas para mim?
O que tanto te incomoda,
Te alerta e te transforma
Que não sobra tempo para mim?

Queria estar na canção que tanto ouves,
No compartimento que nunca coube
Nossos corpos ao mesmo tempo.
Quero estar em ti a todo instante,
Riso frouxo, olhar radiante
Morar em teus pensamentos.

Ah se fosse tudo tão diferente,
Se você me olhasse atentamente
A ponto de me descobrir em ti.
Eu surgiria de trás das sombras,
E o meu amor avançando em ondas
Cairia manso a te cobrir.

Queria tanto falar contigo,
E te mostrar o quanto eu preciso
Fazer parte da tua história.
Mas tenho medo que a música cesse,
Que a solidão, para mim, regresse
E tu me apagues da memória.

Doce ilusão

Doce ilusão e mistério
Você me tira do sério
Tem vocação em querer me iludir.
Teu coração insincero
Me julga por tolos critérios
nessa canção que eu já cansei de ouvir.

Doces palavras são ditas,
Eu pergunto se ainda acreditas
Nas juras de amor que um dia fizemos.
Você me responde, no entanto,
Que o teu amor um dia foi tanto,
Pois as paixões sempre nos tornam mais cegos.

Eu já não posso descrever
como é viver sem você
Nas tardes de inverno dessa cidade tão triste.
Por onde viaja meu pensamento,
Em que lugar, em qual momento
Vou te provar que esse amor ainda existe.

Decerto que a minha loucura
Foi perder-me na tua cintura
E nos doces beijos dessa boca tão linda.
Hoje essa saudade me fere
Com o desejo à flor da pele,
Volta meu bem, você ainda é bem-vinda!

As cartas que nunca enviei

Entre tantos souvenirs que guardo comigo,
Estão as cartas que nunca enviei…
Repletas de frases bonitas,
Dedicatórias cheias de paixão e afeto,
Um amor contido e secreto,
Tanta coisa que desejei.
Ao escreve-las imaginava
O brilho no olhar da amada,
O rubor de sua face ao ler
O quanto a desejava todos os dias.
E como eram doces aqueles dias,
Como era doce o meu querer,
Pilhas e pilhas de cartas,
Letras desenhadas, coloridas,
Uma para cada dia de desejo,
Todas encerradas com um beijo,
Mas nunca enviadas.
Como eu gostaria que ela soubesse
Das minhas intenções, das minhas preces,
De como o meu corpo reagia
A cada pensamento cheio de alegria
Que eu detalhava naquelas cartas…
Que eu nunca enviei.
Lá estava tudo escrito,
O dito pelo não dito,
As confissões mais secretas,
Também as mais sinceras,
Porém, nunca enviadas.
Hoje penso como seria
Esses meus tristes dias,
Se a ela eu tivesse enviado,
Todos os dias, como pensado,
Essas cartas que eu escrevia.
Estaríamos hoje, lado a lado
Como dois apaixonados
Numa eterna fantasia?
Mas é tudo suposição,
E é só isso que ainda sei,
Feito lembranças de um passado
Onde tudo continuará guardado,
Feito as cartas que nunca enviei.